Friday, December 01, 2006

Nicolas Behr

POEMA ANTI-AJUDA

felizes os fracos de espírito
pois estes têm gurus
felizes os que ainda botam fé
no ser humano
felizes os que sabem ler
e têm algo pra comer todos os dias
felizes os que criam o inferno
para depois prometer o paraíso
felizes os indiferentes, que não se comovem com nada e sofrem menos
felizes os que mentem para si mesmos e
acreditam piamente nisso
felizes os infelizes, pois estes são os verdadeiros iluminados
felizes os que nunca choram e, portanto,
não passam vergonha
felizes os que têm autoconfiança, autoestima, automóvel
felizes os amigos dos poderosos,
que tudo querem, que tudo podem
felizes os que acreditam no amor de Cristo
pois estes não têm mais salvação
felizes os andarilhos, os indecisos, os confusos, os sem-rumo-na-vida
felizes os que choram com facilidade pois estes estão sempre reciclando
a água parada dos seus olhos, fazendo chover nos seus corações
felizes os piegas, os românticos, ultrapassados, bregas,
os que falam deamor sem medo do ridículo,
nem que seja pra faturar uma boa grana naquela música
que vive tocando no rádio e o povão adora
felizes os que escrevem livros de auto-ajuda e ganham muito dinheiro,
muito dinheiro, que é o que realmente importa, que é o que realmente interessa

Carlos Drummond de Andrade

Poesia (Carlos Drumond de Andrade)
Gastei um hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Fernando Pessoa

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Poemas e poesias

Hoje tem poema e muita poesias

Viver e ver os personagens de Pessoa
Sentir o fogo do amor de Camões
E vortá a sonhá com Assaré
Nas letras emotivas por Vinícius de Moraes
Chorar... e com Drummond inundo minha vida inteira
Embriagar-me de tanto rir com Millôr
Com meus oito anos respiro Casimiro
E na noite de São João pular a fogueira com Jorge de Lima
Casamento a moda antiga que me tráz Adélia Prado
Rebusco a força da mulher que me apresenta Coralina
O meu amor com jeito manso rodando na vitrola com Chico Buarque
Rompe um carro, no último volume, com o diário de um detento e rola Racionais
Eis que surge Gonçalves Dias triunfante com a Canção do Exílio
na retaguarda Álvares de Azevedo me dissia Se eu morresse amanhã
Ah, que bom seria se todo dia fosse poesia
Ah, que bom seria se todos os poetas revivessem
Ah, que bom, todos os dias são poesias
Ah, que bom, todos revivem dentro de nós todos os dias.
Corrita Melão
1º/dez/2006